quinta-feira, 29 de maio de 2008

Transferência e Saber, um sentido, uma direção?





“O sentido, é necessário dizê-lo, quando não se o trabalha, é opaco” (Lacan).

Três mulheres se reúnem no IEPSI para estudar os Seminários de Lacan.
Não são todas analistas, mas o que as enlaça é a psicanálise.
Um grupo incompleto que, às vezes, questiona sua inserção no Instituto.
Se não conseguimos formatar um cartel, por que permanecemos aqui?
Não respondemos, mas continuamos nos encontrando, estudando e pagando uma pequena mensalidade que legitima a utilização da sala, da biblioteca e as pequenas atenções da secretária.
Tramas em três semestres se desenvolvem como um trava-língua a nos desafiar.
Temos muitas dificuldades de falar sobre o que lemos, sentimo-nos incapazes de produzir um escrito próprio, mas temos certeza da seriedade de nosso compromisso com o estudo e com o grupo.
Trocamos livros, discos, poemas, doces e pães que fazemos em casa, metaforizando o real que não podemos ‘iluminar pela letra’.
Acolhemo-nos de forma bastante feminina, sustentando o afeto que nossa experiência compartilha.
Estamos, completamente, transferidas com o texto psicanalítico.
Justo quando o livro 22- R.S.I.- nos tirava o sono nas tentativas de apreendê-lo, uma colega relata o que lhe aconteceu na confecção de um “caminho” de crochê: um nó se amarra, travando o tecido que não pode ir para frente nem ser desmanchado para trás.
Mais uma vez, estamos diante das formas tortuosas de enodamento do estudo, nos desafiando a uma escritura que suporte esse real.
Belo dia, quando desistidas de compreender o seminário 22, passamos a nos dedicar com empenho aos “Quatro conceitos...”- livro 11, Eunice, a secretária, que é, na verdade, a única pessoa do IEPSI com quem mantemos contato regular, nos comunica que não vai mais poder receber nossa mensalidade.
‘Não estão inscritas como cartel, não freqüentam os seminários, não mais existe o estatuto de grupo de estudo na instituição e, assim sendo, não há como estipular o valor da contribuição financeira.’
Agitação, angústia, constrangimento.Interrupção da cadeia significante.Tropeço.
Fomos convidadas a sair do IEPSI?
Não nos querem, aqui?
O que está por detrás dessa fala da Eunice?
Uma mobilização inédita, um grande mal-estar, toma conta do grupo.
Mais uma vez o nó borromeano se materializa na nossa frente: Real, Simbólico e Imaginário. Mas, desta vez, não poderíamos apenas nos deleitar com essa constatação.
O que enodava os registros era a demanda de quem legitimava nosso grupo dedicado ao estudo da psicanálise. Era o nosso +1, o IEPSI, personificado na Eunice.
“Não há algo...sem outra coisa”, diz Lacan. “Não há meio de me seguir sem passar pelos meus significantes.”
E o IEPSI engrossa o coro: “Eu deixo cada um seguir seu caminho na direção que mostro”.
Primeiro sentimos, para depois entendermos, que o significante cartel representa um sujeito para o significante IEPSI e que no espaço entre estes dois significantes estava aparecendo o nosso desejo.
Era isso o que estava por trás da intervenção da Eunice.
Nosso desejo foi, de fato, acolhido pela instituição de transmissão da psicanálise, na figura majestosa da Ângela Porto, que se apresentou como +1, de forma generosa e, genuinamente, interessada em se incluir no nosso grupo.
E, já no segundo encontro, ela nos abre o espaço de um Blog que nos dá voz e consistência, indicando a quem a gente pode se dirigir para buscar desvendar os caminhos do saber suposto e da transferência.
Nosso cartel, agora menos incompleto, e tão instigante quanto sempre.

Maria Beatriz Cândido

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